“Se você quer ser excelente, se você quer ser o melhor no que faz, todos vão te interpretar mal, porque você vai ser obcecado e determinado para chegar lá. E tem que ser. Isso exige cada segundo da sua vida.” – David Goggins
A realidade do empreendedor brasileiro não é fácil. Seja para ter mais liberdade, mais tempo de qualidade com a família ou melhores oportunidades de vida, uma jornada de negócios exige, e muito. Exige esforço, forja, trabalho árduo todos os dias e uma alta capacidade de lidar com incêndios, que parecem surgir quando menos esperamos.
Os altos e baixos parecem não ter fim; por vezes, estamos “voando” e, em outros momentos, estamos em baixa, torcendo para que um milagre nos encontre.
Se você se sente assim, saiba que não é o único. Até os maiores empresários já quebraram, faliram, tiveram dificuldades e, em algum momento, passaram por descrenças sobre o próprio potencial e incertezas sobre o futuro.
Motivação, o grande divisor entre o sucesso e o fracasso
Em todos esses casos, algumas características diferenciam os empreendedores que desistem e os que continuam até alcançar os objetivos que propuseram. Mas, de todas as características das pessoas de sucesso, uma é a basilar: a motivação.
Sim, sei que a motivação virou um clichê, um recurso barato de gurus ou coaches que só falam: “Você consegue”, “Você merece tudo”, “O mundo é seu”. Mas, nem de longe, é disso que quero falar com você hoje.
Superficialidade não gera transformação.
A motivação barata pode até ser bonitinha de início, mas os seres humanos, por natureza, buscam o “algo a mais”. Só por meio de uma profunda reflexão é que somos capazes de moldar os nossos comportamentos.
Enquanto uns olham para os desafios e ficam paralisados, outros enxergam obstáculos e encontram motivos para agir e superá-los.
Um adendo aos cristãos neste artigo: nós, cristãos, podemos encontrar alívio e conforto na provisão divina e na confiança de que, até nas maiores tempestades, existe Graça e propósito.
Apesar de exemplos de fé serem a base de uma vida cristã, é importante olhar também para pessoas próximas, nas quais encontramos desafios, contextos e oportunidades parecidas. Isso alimenta a motivação e nos ajuda a seguir.
É por isso que, a partir daqui, vou contar a história da motivação de David Goggins. Tenho certeza de que o olhar de Goggins sobre os desafios da vida pode render boas reflexões sobre a sua vida empresarial. Vamos lá?
A motivação de David Goggins não veio da infância

David Goggins, o mais casca grossa do mundo, nem sempre foi assim. Na verdade, muita gente pode se surpreender com o quão comum ele era e com a vida normal que ele seguia. Tudo dentro dos limites, tão normal, regular e “mais ou menos”.
Antes de receber esse título, David Goggins passou por uma história complicada, que se arrastou da infância para a vida adulta.
Ele nasceu em Buffalo, Nova Iorque, e o pai dele tinha um bar e pista de patins. Ele era alcoólatra e trocava mulheres por favores – sim, como se não fossem nada. Apesar de um cara egoísta e extremamente agressivo, as pessoas de fora só conheciam o outro lado: o cara legal, um pai que qualquer filho teria a sorte de ter.
Mas, o lado que todos conheciam era bem diferente de dentro de casa.
A verdade por trás do pai de Goggins só aparecia dentro de quatro paredes, a portas fechadas. Agressões e espancamentos à esposa e ao filho, traições e abusos psicológicos e financeiros.
Apesar de tudo, David diz que a tortura mental era pior:
“Ele fazia tantos jogos mentais comigo quando eu era criança, e isso acaba com a sua estrutura.”
Lembre-se disso: David passou por todos esses problemas logo nos primeiros anos de vida, em que o cérebro se desenvolve e que a criança começa a ganhar autoestima, confiança, coragem e tantas outras características importantes para a fase adulta.
O pai de David tirou tudo isso dele. Ele viu a própria mãe apanhando até desmaiar, e isso criou uma marca. Ele estava sempre apavorado e com medo.
Em meio a todo este conflito, com apenas 6 anos de idade, ele já ouvia uma voz que dizia: “Você tem que fazer algo”. Aquela voz o forçou a levantar e tentar bater no próprio pai aos 6 anos – claro, no fim, ele quem acabou apanhando.
Esses abusos continuaram por anos, e, pelo fato de o pai do David não ser a favor da escola, ele teve problemas de aprendizado.
David Goggins sabia o que era trabalhar desde cedo, mas isso não era tão bom quanto parece

Dos 4 aos 8 anos de idade, David teve que trabalhar na pista de patins – ele trabalhava de 19h às 22h com o público. Enquanto o pai ficava no escritório, sobrava para David, seu irmão e sua mãe limpar toda a pista de patins, tirar chiclete do chão e cuidar de tudo até às 03h da manhã.
Raramente eles iam para a escola, então David tinha problemas para aprender. A solução que encontrou para passar por este período foi colar da quarta série até o fim do ensino médio.
Quando David completou 9 anos, a mãe dele tomou coragem para largar o marido e se mudou com os filhos para Indiana. Entre os 10 mil habitantes da cidade, só 10 famílias eram negras.
Em 1995, o KKK desfilou na Parada da Independência e David ficou assustado, já que ele era uma das poucas crianças negras na cidade.
Fora o próprio susto de ver uma ideologia racista se arrastando pela cidade, ele também passou por maus bocados na escola: recebeu bilhetes com ameaças de morte em seu caderno por ser negro.
Isso fez com que a insegurança de David só aumentasse: de repente, os problemas do lar violento em que vivia tomavam a sua mente e se acumulavam com as ameaças que recebia.
A voz que o dizia para levantar e agir foi ficando cada vez mais forte, mas foi ignorada por muito tempo.
Com uma idade mais avançada, David decidiu que seu objetivo seria entrar para a força militar. Ele queria ser paraquedista de resgate – um dos caras que pulam de aeronaves e salvam pilotos – uma equipe especial da Força Aérea.
O problema? Ele não conseguia colar, porque as provas tinham 3 versões diferentes – A, B e C.
Ele tirou 20 e a nota foi tão ruim que ele teve que refazer o teste. Na segunda tentativa, ele tirou uma nota ainda pior: 18. Detalhe: a nota para passar era 50, em 1999.
A decisão da mãe de David e novos desafios

A mãe de David, ele e o irmão, moravam em imóveis públicos com o aluguel por 7 dólares e recebiam auxílio refeição. Ela conseguiu juntar dinheiro e pagar um professor particular – 1 hora por semana. Ele teve 6 meses para estudar para o último trimestre.
Ele estudou muito e conseguiu entrar na Força Aérea. Mas, daí por diante apareceram mais problemas e dificuldades – o pior deles era interno: David tinha pavor de água.
Ele até aprendeu a nadar, mas em todos os treinamentos especiais existe um teste de confiança na água, em que os oficiais tentam te afogar. Esse teste serve, basicamente, para ver o quão confortável você fica na água sem conseguir respirar.
O agravante para David: só 1% das Forças Especiais Militares era composta por afroamericanos, já que a densidade corporal (relação entre peso e volume do corpo) é superior à dos brancos, fazendo com que os negros tivessem mais atrito com a água e menos flutuabilidade.
Ele teve muita dificuldade, mas ficou entre os 25 que ainda estavam lá, de uma classe de 150 pessoas. David não conseguiu dormir nas 6 semanas de treinamento, ele queria desistir, mas ele já tinha desistido de tudo na vida, então queria provar que as outras pessoas estavam erradas sobre ele.
“As pessoas que estão ouvindo isso nunca vão realmente compreender o quanto encarar coisas assim te deixa atormentado durante a noite”.
Para cada novo desafio, novas desculpas apareciam
David estava tentando ganhar mais confiança na água, mas se sentia humilhado, sem conseguir passar no que precisava para avançar. Na 6ª semana, o médico pediu um exame de sangue e descobriu que tinha o traço de anemia falciforme, mas não tinha a doença.
Por ser perigoso, ele foi afastado por 1 semana do treinamento. Com esse tempo afastado das atividades, ele percebeu que não queria voltar para a água. Enquanto pensava nisso, todas as inseguranças sobre seu pai e a cidadezinha em Indiana voltavam à sua mente.
Ele não demonstrava, mas o passado e as inseguranças estavam em sua mente o tempo inteiro.
Depois de descobrir sobre o traço de anemia falciforme, David pensou que teria dispensa médica. E estaria tudo bem em sua mente, já que ele seria dispensado, não era uma desistência.
Em vez disso, o médico decidiu que David voltaria ao treinamento. Ele pensou que, por ter perdido apenas 1 semana, não teria que voltar ao treinamento da água, então faltariam apenas 3 semanas para tudo acabar.
Mas, ao falar com o comandante, ele descobriu que teria que recomeçar o treinamento por ter perdido 1 semana. Ele desmoronou, não conseguia pensar em repetir todo aquele tormento.
Então, ele criou uma mentira: “Cara, essa anemia está me deixando preocupado”, mas a preocupação era com a água, não com a anemia. Foi aí que David Goggins desistiu, a desculpa superou a motivação.
O período pós-desistência de David Goggins: quando o conforto acaba com a motivação

Dos 19 aos 22 anos, David foi para o TACP (Tactical Air Control Party) da Força Aérea, onde controlava veículos atrás da linha inimiga. Sem água, confortável.
Nesse período, David ganhou 58 quilos – de 79kg ele foi para quase 136kg. Ele achava as coisas confortáveis.
“Quanto mais coisas confortáveis eu encontrava, mais desconfortável a minha mente ficava, porque aquela voz sempre continuou lá. Eu evitava aquela consciência, eu queria me afastar da minha consciência, mas ela não deixava.”
Aos 24 anos, mesmo no conforto, David resolveu sair da Força Aérea e começou a trabalhar para a Ecolab, dedetizando baratas em restaurantes de 00:00 às 07h da manhã.
Mas uma coisa mudou o pensamento de David: o programa passado na TV chamado Classe 224.
Um lampejo de motivação pode ser encontrado nos lugares mais improváveis
Foi um dia normal de trabalho. Após 7h de dedetização, era hora de ir para casa. David Goggins fez o que costumava fazer: comprou um grande copo de Milkshake, uma caixa de mini donuts e dirigiu para casa por 45 minutos. Ele malhava, mas era grande e gordo – segundo suas próprias palavras.
Ao chegar em casa após o trabalho e os confortos do dia, David ligou a TV e viu o programa Classe 224. Foi aí que tudo mudou.
“O programa me fez refletir sobre o pedaço de merda que eu era e que eu tinha virado o fracassado que disseram que eu seria.”, diz David.
No programa, David viu a Classe 224 na Semana Infernal. Alguns tocaram o sino, largaram o capacete e foram embora. Eles desistiram.
Nesse momento, ele parou para pensar em seus medos e inseguranças, e começou a enxergar naquele programa os homens de verdade, que continuavam.
Aqueles homens superaram as adversidades, superaram tudo, enquanto ele culpava tantas pessoas em sua vida pelos seus fracassos. Todos eram culpados, até mesmo o seu problema de aprendizado e sua cor de pele.
“Eu fiquei sentado por um tempo e pensei: ninguém vai vir me ajudar. Sou eu comigo mesmo, ponto final. Então, eu tive que virar homem.”
Ao decidir que ninguém mais era culpado, a primeira coisa que ele pensou que deveria fazer era enfrentar todos os medos que tinha, não importava qual fosse.
Isso o manteve acordado à noite. Agora, ele tinha duas opções:
1) Ele seria aquele dedetizador de baratas de 134kg que ganhava mil dólares por mês, e que, aos 24 anos, sabia que aos 50 anos pensaria no tipo de cara que nunca se tornou;
2) Ele podia simplesmente encarar, enfrentar seus medos e ultrapassar os seus limites para falhar, falhar e falhar até ter sucesso.
A motivação só vem pela decisão, e David Goggins decidiu se moldar

Depois de decidir que tipo de pessoa ele queria ser, ele começou a ligar para recrutas com um objetivo bem claro: ser SEAL da Marinha Americana. Todos eles diziam ter um limite de peso e altura.
David tinha 1,85 de altura e 134kg; ele também já tinha servido, o que era uma vantagem. O problema? O peso.
Os recrutas conversavam e faziam perguntas para saber se ele era qualificado, mas, ao dizer o peso, eles praticamente desligavam. As sugestões foram: “ligue para os reservistas”, e foi isso que ele fez.
David Goggins ligou e conversou com Steven Schaljo que, por falta de tempo, o chamou para uma visita presencial sem fazer qualquer pergunta. Ao ver David, ele o pesou e disse que, para entrar na classe, ele teria que perder 46kg em menos de 3 meses.
O que David pensou neste momento reflete o que nós pensamos ao encontrar novas dificuldades:
“Eu não consigo. Peguei meu milkshake de chocolate e voltei ao meu trabalho de dedetizador. Essa é a minha vida.”
Na noite seguinte, em um dos seus trabalhos, tendo que procurar baratas, ratos e insetos, ele encontrou um ninho de baratas. Em pouco tempo, o restaurante ficou lotado de animais sujos e nojentos.
“Eu sentei lá e disse: essa é a minha vida. Logo depois, disse: isso não vai ficar assim.”
Para decidir ser diferente, você precisa largar o que te prende
Ao decidir não aceitar a vida que tinha, na mesma noite, David largou o emprego e deixou todos os equipamentos para trás.
Ao chegar em casa, David Goggins começou a se exercitar como um obcecado.
Ele teve que inventar um cara que não existia, um cara que suportaria qualquer dor, qualquer sofrimento, qualquer julgamento.
“Eu tive que criar essa mente calejada, e criei através do sofrimento. Eu construí me colocando nas piores situações. Se estivesse chovendo e nevando lá fora às 03 da manhã, o primeiro instinto de qualquer pessoa seria não vai lá fora, não faça nada, mas o meu instinto era nós precisamos ir lá fora.”
David Goggins: a motivação o fez abraçar o horrível e parar de recusar oportunidades
Tudo o que ele normalmente diria “não”, que era desumano para a maioria das pessoas, começou a se tornar uma obrigação para David.
Foi então que ele começou a calejar a própria mente:
- Ele perdeu 48kg em 3 meses e entrou na classe;
- Em vez de 1 Semana Infernal como qualquer outra pessoa da classe, David extrapolou os limites;
- Ele foi o único da história dos SEALs a participar de 3 semanas infernais – e ele fez isso em 1 ano.
David se forjou, se moldou e se tornou obcecado pelos desafios. A partir do momento em que ele abraçou os obstáculos como oportunidades de crescimento, não parou mais de ultrapassar os próprios limites.
Por esse processo, ele percebeu que cada um cria a sua mente. Ele começou a abrir portas que nem sabia que estavam lá.
“E quanto mais portas eu abria, mais apareciam e mais eu percebia que o meu potencial era quase infinito. Isso mudou toda a minha mentalidade.”
Ele saiu de David Goggins e criou o Goggins, o cara mais casca grossa do mundo.
A motivação pode vir da felicidade que encontramos nos desafios

“Equilíbrio é importante para alguns, mas, se você quer ser excelente, e percebeu que as pessoas não gostam de você, não te entendem, questionam tudo o que você faz… você está no caminho certo.”
Goggins diz que sempre escuta perguntas como “você é feliz?” e que contar quem ele era antes e quem se tornou não deixa espaço para mais nada a não ser orgulho dentro dele.
As pessoas olham para a sua cara e perguntam: “Você é feliz? O que há de errado com você?”, e Goggins responde: “Eu sou determinado. Eu sou obcecado. É isso que você vê.”
Apesar de conquistar os próprios desafios e superar muita coisa, Goggins continua elevando o potencial e ultrapassando os próprios limites.
Para ele, essa determinação vem de uma posição desprezível de não estar realizado na vida.
Para Goggins, tudo mudou quando ele parou para analisar todos os problemas da sua vida; o pai violento, as discriminações, os problemas de aprendizado e as mentiras que ele contava aos outros e a si mesmo.
Mas, isso não foi o suficiente. Ele impôs um objetivo e se perguntou: “Como vou me sentir quando alcançar esse objetivo, tendo vindo daquele inferno?”
“Nem todos começam com uma boa estrutura, e se eu pudesse ultrapassar esses caras?”, Goggins explicou.
“Eu apostei tudo no David Goggins para ser um SEAL da Marinha e torcer para vencer, ou já era. Eu apostei toda a minha vida. Um cara que tinha medo da água, que não sabia ler e escrever, para se tornar um dos mais durões do mundo. Um cara que veio do nada.”
Sabemos que cada um luta as suas batalhas, as oportunidades não são divididas igualmente pela vida. Vemos, também, muitas injustiças na vida empresarial.
Existem pessoas menos qualificadas que você, com produtos ou serviços piores, que recebem louros e faturamentos que não mereciam.
Mas, a pergunta que fica é: você usa isso como motivação para ultrapassar os seus limites, superar o seu contexto e conquistar seus objetivos? Ou ainda usa as situações como desculpa para não se tornar quem você quer ser?
O artigo de hoje não tem CTA, apenas reflexão. Esperamos ter ajudado e te motivado de alguma forma.